Causo
A boa cachaça
— Bom dia Sr. Miguel, como vai o amigo?Vim lhe fazer esta visita,
pois, já estava morrendo de saudade de uma boa prosa. Faz tanto tempo, que já
não aguentava mais esperar.
—Eu também, Julio. Eu também.Ao ver vocês vindo lá na estrada,fiquei feliz que só
vendo.Dizia tendo os olhos arregalados como era do seu costume quando falando
com alguém.Sem perder o compasso das palavras perguntava sobre outras
coisas,principalmente sobre a família.Deu um abraço forte em meu pai,seu amigo
antigo das muitas lutas no campo.Este também velho amigo meu,alem de ser meu
pai,um companheiro que sempre que possível passávamos um bom tempo junto
jogando conversa fora.Todos nós felizes pelo reencontro sorriamos largamente
com vontade.Miguel,falante como só ele,dizia das boas, fazendo-nos sorrir sem
parar.Sua filha nos trouxe um café que veio a calhar.Quentinho,este evaporava fumaça esbranquiçada subindo e desaparecendo
no ar.Dos tempos antigos, qualquer coisa servia para animar a boa conversa que,no
sotaque mineiro de um homem do campo com palavras arrastadas, ia ganhando vida
as mais estonteante histórias. Dentre estas, começa a dizer sobre tal cachaça. Curioso,eu
mesmo achando aquela cachaça um tanto esquisita,observava seus olhos esbugalhados
e as rugas subirem em sua testa quando afirmava com veemência que era assim que
se fazia uma boa cachaça nos tempos antigos.Dizia Miguel:
—Meu filho. Uma cachaça pra ficar boa é preciso seguir um
ritual.Tudo que você acha pela frente em decomposição,nela coloca.É uma esteira
grande que se segue e durante o caminho na esteira vai,frutas já
apodrecendo,bagaço de cana em estado de decomposição,coro velho de boi para dar
a ela melhor coloração,buchada de boi,para dar um paladar satisfatório madeira envelhecida,chifre
recém-tirado de algum animal, fel para que ela fique bem forte,e para encurtar
a história até um cachorro morto foi parar nesta cachaça.E acreditem!Estes são
apenas alguns dos itens,porque a lista é estensa.Quanto mais me via espantado,mais
suas rugas cresciam na testa acompanhada de olhos arregalados e chegava espumar
pela boca quase explodindo por dentro,achando muito engraçado o meu espanto.Meu
pai,outro que gostava de um bom bate papo,olhava para mim,e dizia ser tudo
verdade o que o Miguel dizia.Ambos não estavam a aguentar de vontade de explodirem
em uma gostosa risada.Eu inocente.Menino crescido na cidade,achava aquela
cachaça forte demais.Mas não ousava desmentir o velho amigo na sua boa prosa e
na verdade nem podia,pois o que eu entendia de cachaça! Na verdade, nada. Contador
de boas histórias,dizia Miguel que cultivou a terra e plantou uma saca de
feijão.Durante seis meses não choveu e,passado estes,choveu não muito,mas o
suficiente para nascer todo o feijão e querem saber o resultado! Nasceu todo
ele e não perdeu um só caroço e a colheita foi farta. Passada as horas e
farto,matada a saudade do amigo,partimos e no caminho eu disse ao meu pai
Augusto.
—Que diacho de cachaça é esta, pai? Até cachorro morto
colocam nela. Meu pai não aguentou e soltou uma boa risada.Aquilo é tudo
mentira filho,o Sr.Miguel é um contador de história.Então me ensinou uma
coisa.Filho,não há nada melhor que um bom bate papo e,quando você perceber que
alguém está mentindo,nunca diga que é mentira.Finge acreditar e manda outra em
cima.Porem não confunde causo com mentira,pois a mentira é aquela que faz mal a
outra pessoa,lhe trazendo dano a ela, seja em qual sentido for.Suas palavras
soavam como musica para mim e levei minha mão ao seu ombro e o abracei.
Homenagem a dois grandes amigos que já partiram.
SR. MIGUEL E MEU PAI,
AUGUSTO.
É um prazer dividir com meus queridos leitores estas
histórias que são casos verdadeiros.
Mirto
Carvalho
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